• Angola dá grande passo na Neurorradiologia de Intervenção com projecto pioneiro no CHGEPMTP


    O Complexo Hospitalar General de Exército Pedro Maria Tonha “Pedalé” (CHGEPMTP) realiza, desde segunda-feira, 16 de Fevereiro, o primeiro procedimento de tratamento minimamente invasivo de patologias vasculares cerebrais na rede pública de saúde em Angola. Este marco histórico representa o início de um projecto nacional de Neurorradiologia de Intervenção, permitindo que tratamentos complexos, anteriormente realizados no exterior, passem a ser executados no país, com ganhos significativos em termos técnicos, clínicos, financeiros e pedagógicos.

    O procedimento foi liderado pelo Prof. Dr. Carlos Clayton Freitas, neurorradiologista brasileiro e presidente honorário da Associação Brasileira de Neurorradiologia, em estreita colaboração com especialistas angolanos, nomeadamente o Dr. Wilson Teixeira, chefe do Serviço de Neurocirurgia do CHGEPMTP, e o Dr. Celestino Delgado, chefe do Serviço de Radiologia. A equipa realizou intervenções em aneurismas cerebrais, malformações arteriovenosas e fístulas arteriovenosas, recorrendo a técnicas avançadas de abordagem endovascular minimamente invasiva, que reduzem riscos cirúrgicos, o tempo de internamento e proporcionam uma recuperação mais rápida aos pacientes.

    Até ao momento, o Estado angolano suportava custos médios superiores a 200 mil dólares norte-americanos por paciente, incluindo evacuação sanitária, transporte, internamento e subsídios, o que, para 12 casos, representava aproximadamente 2,4 milhões de dólares. Com a implementação deste serviço no CHGEPMTP, o investimento estimado para esta primeira fase é de cerca de 50 milhões de kwanzas, traduzindo-se numa poupança superior a 75% para os cofres públicos, além de permitir que os doentes permaneçam próximos das suas famílias durante o tratamento.

    Nesta fase inicial, estão programadas 12 intervenções, abrangendo diagnósticos e tratamentos de elevada complexidade, em pacientes com idades compreendidas entre os 10 e os 60 anos, com protocolos ajustados ao perfil clínico e à faixa etária de cada caso.

    A iniciativa enquadra-se no Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde, financiado pelo Banco Mundial e coordenado pela Unidade de Implementação do Projecto (PFRHS-UIP). A Ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, destacou que “este projecto representa um passo decisivo para a independência técnica do sistema de saúde angolano, garantindo que milhares de pacientes tenham acesso local a tratamentos que salvam vidas e reduzindo significativamente os encargos do Estado com evacuações e internamentos no exterior”.

    Do ponto de vista pedagógico, esta iniciativa significa a transferência directa de conhecimento especializado para médicos internos e especialistas angolanos, permitindo formação prática em contexto real, contacto com tecnologia de ponta e consolidação de competências técnicas avançadas. Para os profissionais de saúde, representa uma oportunidade histórica de especialização no próprio país, reduzindo a dependência formativa externa e criando bases sólidas para a sustentabilidade do serviço a médio e longo prazo.

    O programa de capacitação contempla um internato estruturado em Neurorradiologia de Intervenção, formação prática com corpo docente brasileiro, apoio contínuo por telemedicina, actualização diagnóstica e organização logística para a execução de procedimentos angiográficos complexos. O objectivo é consolidar o CHGEPMTP como centro de referência nacional e regional, contribuindo para a redução de mortes e incapacidades evitáveis associadas às doenças cerebrovasculares e reforçando a qualificação dos quadros nacionais.

    Em várias intervenções públicas, o Presidente da República, João Lourenço, tem sublinhado que o desenvolvimento de Angola passa necessariamente pela formação e capacitação contínua dos quadros nacionais, particularmente no sector da saúde, defendendo que investir nos recursos humanos é garantir autonomia, qualidade e sustentabilidade dos serviços públicos. Este projecto materializa essa visão estratégica ao apostar na transferência de competências e na especialização avançada de profissionais angolanos.

    A missão integra especialistas nacionais e internacionais, entre os quais o Prof. Dr. Job Monteiro, gestor técnico da UIP/MINSA, o Dr. D Jamel Kitumba, especialista da UIP/MINSA, e o Dr. Albano Eugénio, director-geral do CHGEPMTP, bem como equipas de enfermagem, técnicos de radiologia e pessoal administrativo.

    A equipa brasileira é composta pelo Prof. Dr. Carlos Freitas, Dr. Gelson Koppe, Dr. Delson André e Dra. Marlei dos Santos.

    Durante a missão, estão a ser realizados diagnósticos, definição de prioridades clínicas, planeamento terapêutico e formação prática intensiva dos quadros angolanos, garantindo segurança e qualidade assistencial.